Instrumento de Nossa Memória: paredes guardam 400 anos de história do Brasil

Instrumento de Nossa Memória: paredes guardam 400 anos de história do Brasil
Quem passa pelo Largo da Carioca, no centro da cidade do Rio de Janeiro, dificilmente não vai perceber uma imponente construção em estilo colonial. Um dos monumentos mais importantes do Rio, o Convento Santo Antônio foi fundado, e mantido até hoje, pela Ordem dos Frades Menores (Franciscanos), e integra o Santuário de Santo Antônio, que inclui, ainda, as igrejas de Santo Antônio e da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência.
Fundado em 1608, o Convento Santo Antônio não só presenciou fatos marcantes da História do Brasil, entre eles, a invasão dos franceses na Baía de Guanabara, em 1710, como também, abrigou diversas personalidades que tiveram participação decisiva na vida política, social e cultural do País. Para citar alguns exemplos, o Frei Vicente do Salvador, primeiro superior do Convento, escreveu a primeira História do Brasil; Pedro I tinha como educador o franciscano Frei Antônio da Arrábida; e o Frei Francisco de Santa Tereza de Jesus Sampaio redigiu o Manifesto do
Fico e fez o esboço da primeira Constituição do Império.
Antes mesmo de dom João VI desembarcar no Brasil e fundar a Faculdade de Medicina da Bahia, em 1808, considerada a primeira faculdade brasileira, o Convento Santo Antônio ministrava cursos de Filosofia, Teologia e Artes, entre outros, que alcançaram o título de universidade por alvará régio de 11 de junho de 1776.
Para as comemorações de 400 anos de sua fundação, o Convento Santo Antônio recebeu as relíquias do santo casamenteiro e protetor dos pobres, vindas da Basílica de Pádua, na Itália. São três partes autenticadas do corpo de Santo Antônio, que ficaram expostas dentro de relicários dourados durante a 326ª Trezena, celebrada de 31 de maio a 14 de junho de 2008.
Tendo como tema central “Derramarei um rio de paz” (Is 66:12), a 326ª Trezena contou com uma programação intensa, com celebração de missas, apresentações musicais e homenagens de diversas escolas católicas.
O Guia Escolas entrevistou o reitor do santuário e responsável pelas celebrações comemorativas dos 400 anos do convento, o Padre Frei Clarêncio Neotti (O.F.M.), que também é coordenador geral do Projeto de Restauro e Revitalização do Complexo Arquitetônico do Convento Santo Antônio. O Pe. Fr. Clarêncio contou um pouco da história do Convento, revelou algumas curiosidades acerca da construção e ressaltou que lá não existe ociosidade, pois são realizadas diversas atividades de cunho social, cultural e, sobretudo, espiritual.
Guia Escolas: O Convento Santo Antônio acompanhou, praticamente, toda a história do Rio de Janeiro, pois foi fundado em 1608, e a cidade, em 1565. Qual foi a importância da criação do Convento para o Rio e para o Brasil?
Frei Clarêncio Neotti: Os franciscanos chegaram ao Rio de Janeiro em 1592, quando já tinham conventos instalados em Olinda, Recife, Salvador e Vitória. Foram morar na Praia Santa Luzia, entre o Morro do Castelo e a praia. O lugar não se mostrou apropriado para um convento. Por isso, passaram, em 1607, para o já chamado Morro de Santo Antônio, onde, em 4 de junho de 1608, presentes todas as autoridades e o povo da vila, puseram a pedra fundamental do convento definitivo. O primeiro superior foi Frei Vicente do Salvador que, pouco depois, escreveria a primeira História do Brasil.
A história do Brasil e a presença franciscana se confundem como o fermento no pão. Já em 1500 fora um franciscano, Frei Henrique de Coimbra, a celebrar a Primeira Missa no Brasil e a plantar o marco da posse de Portugal.
O Convento Santo Antônio do Rio de Janeiro não só foi um pólo aglutinador do povo às margens da lagoa e do rio Carioca (hoje ambos desaparecidos), mas também foi o ponto de partida para a assistência religiosa do então chamado Recôncavo Fluminense (hoje Baixada Fluminense). Mais: do Convento do Rio partiam os frades para o interior, acompanhando as expedições. Foram os primeiros religiosos a pisar as regiões que hoje constituem os estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás. Um deles foi e voltou a pé do Rio ao Maranhão, percorrendo todo o interior brasileiro, contatando e catequizando todas as tribos indígenas ao longo do trajeto.
GE: Ao longo de sua existência, o Convento Santo Antônio presenciou diversos fatos que marcaram a história do Rio de Janeiro e do Brasil e participou ativamente de alguns deles. O senhor poderia citar os mais importantes e dizer como foi a participação do Convento nesses eventos?
FCN: Cito apenas dois. Em 1710, quando os Franceses invadiram a Baía da Guanabara, nossos soldados se concentraram no Convento Santo Antônio e nele também se abrigou o povo. O comandante português Francisco de Castro Morais pediu ao Guardião do Convento retirar do altar-mor a estátua de Santo Antônio e trazê-la para a frente da Igreja, olhando para a baía. Também deu-lhe o título de Capitão de Infantaria. A Santo Antônio se atribuiu a expulsão dos franceses. Desde então, aquela estátua de Santo Antônio foi posta no frontispício da igreja, como vigia permanente da cidade, e recebeu uma lâmpada votiva, até hoje acesa. Santo Antônio foi várias vezes promovido. Hoje é tenente-coronel do Exército Brasileiro, embora sem receber soldo. Indiscutivelmente, foi o Convento mais envolvido na Independência do Brasil. Dom João VI freqüentava o Convento, mesmo porque, ao assumir a Regência, ele se consagrara a São Francisco de Assis. O educador de Pedro I era o franciscano Frei Antônio da Arrábida, que veio ao Brasil com a Família Real e passou a morar no Convento Santo Antônio, o que obrigava dom Pedro a subir diariamente a ladeira do Convento para receber suas lições. Dom Pedro costumava lanchar à tarde no Convento e tinha em grande estima os frades. Depois da partida de dom João VI de volta a Portugal, o Convento de Santo Antônio tornou-se o local de encontros dos próceres da Independência em torno do dom Pedro. As reuniões aconteciam na cela de frei Sampaio. Aliás, sem Frei Sampaio e Frei Antônio da Arrábida, dificilmente a Independência teria sido proclamada naquele 7 de setembro de 1822.
GE: Em relação à proclamação da Independência do Brasil, a colaboração do Frei Francisco de Santa Tereza de Jesus Sampaio representava um consenso da Igreja ou era uma opinião particular? Foi ele quem redigiu o manifesto do povo pela permanência de dom Pedro I, no Brasil?
FCN: Se era o consenso da Igreja, não sei, porque grande parte do clero naquele momento era português. Mas era, digamos, quase consenso dos franciscanos tanto portugueses quanto brasileiros. O Convento Santo Antônio era sede de governo dos franciscanos da Bahia para baixo. Assim que foi proclamada a Independência, o ministro provincial dos franciscanos enviou carta circular a todos os seus conventos, mandando celebrar Missa de Ação de Graças e pedindo que todos prestassem obediência ao novo Imperador. Alguns historiadores chamaram o Convento Santo Antônio de útero da independência. Pedro I tinha grande confiança nos frades. Nem era Frei Sampaio a estrela mais brilhante do convento. Aqui morava também Frei Francisco do Monte Alverne, considerado o maior orador sacro nascido no Brasil. Aqui morava Frei Francisco de São Carlos, outro famoso pregador, disputado em todas as festas e nove-nas da cidade, professor culto, poeta. Aqui morava Frei Antônio da Arrábida, que, embora português, foi tão fiel a dom Pedro que, proclamada a Independência, nacionalizou-se brasileiro. Aqui morava Frei Ângelo de São José Mariano, brasileiro de nascimento, mas muito respeitado pelos Frades portugueses, quase octogenário e ministro provincial de todos os frades. Aqui morava Frei Mariano Veloso, primo irmão de Tiradentes, considerado o pai da Botânica brasileira e homem admirado em todo o mundo científico europeu. Frei Sampaio, portanto, não estava sozinho, mas encabeçava um belo grupo bem-pensante de franciscanos. O Manifesto do Fico foi redigido na cela de Frei Sampaio por ele. E foi ele também quem fez o esboço da primeira Constituição do Império.
GE: Foi criada no Convento Santo Antônio uma Universidade, que deu início ao ensino superior no Brasil. Quais eram os cursos ministrados na universidade do Convento e quem os cursava?
FCN: O Convento Santo Antônio sempre foi um centro de estudos. Já em 1650, abrigava cursos de Filosofia, Teologia e Artes. Em primeiro lugar, os cursos eram destinados à formação dos próprios frades. Mas eram freqüentados também por religiosos de outras Ordens, seminaristas diocesanos e leigos interessados. Esses cursos alcançaram o título de universidade por alvará régio de 11 de junho de 1776. Até hoje o Instituto Histórico do Rio conserva cópia dos estatutos daquela universidade. Nela, se ensinavam Retórica, Grego, Latim, Hebraico, Filosofia, História, Teologia, Moral, Exegese. Essas cadeiras tinham suas secções. Na de Filosofia, por exemplo, se estudava também o que hoje chamaríamos de Sociopolítica. A universidade existiu até em torno de 1840. Nesta universidade cursou Frei Antônio de Santana Galvão, o primeiro Santo brasileiro, canonizado pelo Papa Bento XVI em maio de 2007. Frei Galvão foi ordenado padre na Igreja de Santo Antônio do Largo da Carioca.
GE: Em 2008, foram comemorados os 400 anos de fundação do Convento Santo Antônio. O que representa esta data para o Convento e para a Igreja?
FCN: Nossa igreja é a mais antiga do Rio de Janeiro. Só por isso seu quarto centenário merecia ser celebrado, não apenas pelos Franciscanos e pela Igreja, mas por todos os que cultivam a história, a arte, os estilos arquitetônicos. Nosso convento é um perfeito exemplo de uma filosofia de vida (a franciscana) transformada
em arquitetura. Por isso mesmo os Correios do Brasil vão homenagear a Igreja e o Convento de Santo Antônio com dois selos a ser lançados no dia 17 de outubro, em Brasília, que deverão circular como os selos de Natal de 2008.
GE: Ainda restam, no Convento Santo Antônio, ambientes preservados desde sua fundação? Ele abriga peças históricas ou raras? O senhor poderia citar as principais?
FCN: A Igreja, apesar dos restauros, reformas, encompridamento, é basicamente a mesma. Estão conservadas as primitivas talhas de madeira, anteriores, portanto, a 1620, guardadas até hoje e que irão para o museu do Convento, depois de restauradas. A imagem de Santo Antônio, de 1,10m de altura, em terracota policromada, feita em 1620, que presidiu o altar-mor até 1710, se conserva até hoje e é considerada uma das maiores relíquias históricas do Rio de Janeiro.
GE: A 326ª Trezena teve como tema “Derramarei um rio de paz”
(Is 66:12). Como surgiu a idéia desse tema e o que representa? Qual é a mensagem que o convento desejou transmitir para a população?
FCN: A vivência e a pregação da paz são temas centrais dos ensinamentos de São Francisco e de Santo Antônio e, portanto, de todas as gerações franciscanas ao longo dos séculos. Ora, o Rio de Janeiro vive ultimamente um denso e tenso clima de violência fratricida. Desde que começamos a preparar as celebrações dos 400 anos, pensamos no tema da paz urbana que, necessariamente, nasce da paz do co-ração humano. Tínhamos dez frases bíblicas sobre a paz. Depois de consultas, fixamo-nos na frase do profeta Isaías, talvez influenciados também pela ocorrência da palavra “rio”. Não conseguimos trabalhar o tema como havíamos planejado em âmbito de favelas e bairros, delegacias e prisões. Mas ele foi levado à Assembléia Legislativa, aos meios de comunicação, grandes e pequenos, a todas as escolas católicas do Rio de Janeiro e, sobretudo, foi desenvolvido nos sermões ao longo de toda a Trezena, através de cantos, slogans e reflexões. Queríamos transmitir a idéia, a certeza de que tanto a paz quanto a violência nascem no coração humano e é no co-ração de cada um que esses temas devem ser tratados.
GE: Quais foram os eventos mais importantes da 326ª Trezena?
FCN: Vou enumerar alguns fatos grandes: a multidão que participou da Trezena. Em nenhuma missa tivemos menos de 600 pessoas. Houve dias em que tivemos mais de 3 mil; a concelebração dos capelães do Exército Brasileiro com a presença de muitos oficiais fardados; a presença diária, na parte da manhã, de uma escola católica; a ceia que demos a 400 pedintes de rua; a Missa dos Antônios; a Missa presidida pelo Cardeal-Arcebispo do Rio, dom Eusébio Scheidt, e concelebradas pelos Bispos do Estado do Rio de Janeiro; a grande procissão na tarde dos dia 14 pelas ruas que hoje cercam o antigo Morro de Santo Antônio. Na parte cultural, posso destacar as três orquestras, as quatro bandas do Exército, as três bandas de colégios e, sobretudo, a pré-estréia do show teatralizado Santo Antônio, Santo do Brasil Inteiro (de Ciro Barcelos).
GE: Houve participação de muitas escolas nas comemorações dos 300 anos do Convento Santo Antônio. Como é a relação do convento com as escolas católicas. Existe uma colaboração mútua no que se refere à Educação?
FCN: O convite feito às escolas católicas do Rio de Janeiro não se prendeu a uma colaboração já existente, mas ao desejo de levar a elas o tema da Trezena. Em minha opinião, o tema da paz deveria ser matéria obrigatória nas escolas. O tema da educação não é estranho ao Convento. Mantemos o Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras), com cursos para carentes. No momento, por exemplo, estamos com 150 alunos de informática. E levamos adiante o movimento da Educafro, que ajuda as minorias e os carentes conseguirem fazer cursinhos de vestibular, os próprios vestibulares e as matrículas nos cursos superiores. Passam de 3 mil os alunos que, no momento, estão sendo beneficiados.
GE: Atualmente, quais as principais atividades realizadas pelo Convento Santo Antônio?
FCN: Existem dois tipos de atividade. Uma já mencionei acima, que poderíamos chamar de atividade social. A ela se prende também o serviço que prestamos aos pobres, com mais de 250 cestas básicas mensais. Para esta atividade contamos com benfeitores fixos e esporádicos. Mas a maior atividade se prende à chama-
da atividade espiritual. Celebramos Missa diariamente, às 8h, 9h, 10h, 11h, 12h30 e 18h. Às terças-feiras, se acrescentam as Missas das 7h, 15h e 17h. Como o convento fica no centro da cidade, e tem metrô pertíssimo, são muitas as pessoas que vêm rezar na nossa Igreja. E temos todo o serviço de atendimento, seja para o sacramento da confissão, seja para o aconselhamento. Desde as 8 da manhã até as 18 horas, inclusive no horário de almoço, temos um padre à disposição de quem precisa de ajuda espiritual. Posso lhe garantir que a ociosidade não existe no Convento.
Publicado em 01/01/2009

